sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

FUNDAMENTOS SOCIOANTROPOLÓGICOS DA EDUCAÇÃO - TEORIA DE PIAGET

O DESENVOLVIMENTO HUMANO NA TEORIA DE PIAGET

Márcia Regina Terra


APRESENTAÇÃO

O estudo do desenvolvimento do ser humano constitui uma área do conhecimento da Psicologia cujas proposições nucleares concentram-se no esforço de compreender o homem em todos os seus aspectos, englobando fases desde o nascimento até o seu mais completo grau de maturidade e estabilidade. Tal esforço, conforme mostra a  linha evolutiva da Psicologia, tem culminado na elaboração de várias teorias que procuram reconstituir, a partir de diferentes metodologias e pontos de vistas, as condições de produção da representação do mundo e de suas vinculações com as visões de mundo e de homem dominantes em cada momento histórico da sociedade.

Dentre essas teorias, a de Jean Piaget (1896-1980), que é a referência deste nosso trabalho, não foge à regra, na medida em que ela busca, como as demais, compreender o desenvolvimento do ser humano. No entanto, ela se destaca de outras pelo seu caráter inovador quando introduz uma 'terceira visão' representada pela linha interacionista que constitui uma tentativa de integrar as posições dicotômicas de duas tendências teóricas que permeiam a Psicologia em geral - o materialismo mecanicista e o idealismo - ambas marcadas pelo antagonismo inconciliável de seus postulados que separam de forma estanque o físico e o psíquico.

Um outro ponto importante a ser considerado, segundo estudiosos, é o de que o modelo piagetiano prima  pelo rigor científico de sua produção, ampla e consistente ao longo de 70 anos, que trouxe contribuições práticas importantes, principalmente, ao campo da Educação - muito embora, curiosamente aliás, a intenção de Piaget não tenha propriamente incluído a idéia de formular uma teoria específica de aprendizagem (La Taille, 1992; Rappaport, 1981; Furtado et. al.,1999; Coll, 1992; etc.).

O propósito do nosso estudo, portanto, é tecer algumas considerações referidas ao eixo principal em torno do qual giram as concepções do método psicogenético de Piaget, o qual, segundo Coll e Gillièron (1987:30), tem como objetivo "compreender como o sujeito se constitui enquanto sujeito cognitivo, elaborador de conhecimentos válidos", conforme procuraremos discutir na seqüência deste trabalho.

1) A VISÃO INTERACIONISTA DE PIAGET: A RELAÇÃO DE INTERDEPENDÊNCIA ENTRE O HOMEM E O OBJETO DO CONHECIMENTO

Introduzindo uma terceira visão teórica representada pela linha interacionista, as idéias de Piaget contrapõem-se, conforme mencionamos mais acima, às visões de duas  correntes antagônicas e inconciliáveis que permeiam a Psicologia em geral: o objetivismo e o subjetivismo. Ambas as correntes são derivadas de duas grandes vertentes da Filosofia (o idealismo e o materialismo mecanicista) que, por sua vez, são herdadas do dualismo radical de Descartes que propôs a separação estanque entre corpo e alma, id est, entre físico e psíquico. Assim sendo, a Psicologia objetivista, privilegia o dado externo, afirmando que todo conhecimento provém da experiência; e a Psicologia subjetivista, em contraste, calcada no substrato psíquico, entende que todo conhecimento é anterior à experiência, reconhecendo, portanto, a primazia do sujeito sobre o objeto (Freitas, 2000:63).

Considerando insuficientes essas duas posições para explicar o processo evolutivo da filogenia humana, Piaget formula o conceito de epigênese, argumentando que "o conhecimento não procede nem da experiência única dos objetos nem de uma programação inata pré-formada no sujeito, mas de construções sucessivas com elaborações constantes de estruturas novas" (Piaget, 1976 apud Freitas 2000:64). Quer dizer, o processo evolutivo da filogenia humana tem uma origem biológica que é ativada pela ação e interação do organismo com o meio ambiente - físico e social - que o rodeia (Coll, 1992; La Taille, 1992, 2003; Freitas,  2000; etc.), significando entender com isso que as formas primitivas da mente, biologicamente constituídas, são reorganizadas pela psique socializada, ou seja, existe uma relação de interdependência entre o sujeito conhecedor e o objeto a conhecer.

 Esse processo, por sua vez, se efetua através de um mecanismo auto-regulatório que consiste no processo de equilíbração progressiva do organismo com o meio em que o indivíduo está inserido, como procuraremos expor em seguida.

2) O PROCESSO DE EQUILIBRAÇÃO: A MARCHA DO ORGANISMO EM BUSCA DO PENSAMENTO LÓGICO

Pode-se dizer que o "sujeito epistêmico" protagoniza o papel central do modelo piagetiano, pois a grande preocupação da teoria é desvendar os mecanismos processuais do pensamento do homem, desde o início da sua vida até a idade adulta. Nesse sentido,  a compreensão dos mecanismos de constituição do conhecimento, na concepção de Piaget, equivale à compreensão dos mecanismos envolvidos na formação do pensamento lógico, matemático. Como lembra La Taille (1992:17), "(...) a lógica representa para Piaget a forma final do equilíbrio das ações. Ela é 'um sistema de operações, isto é, de ações que se tornaram reversíveis e passíveis de serem compostas entre si'".

 Precipuamente, portanto, no método psicogenético, o 'status' da lógica matemática perfaz o enigma básico a ser desvendado. O maior problema, nesse sentido, concentra-se na busca de respostas pertinentes para uma questão fulcral: "Como os homens constróem o conhecimento?" (La Taille: vídeo). Imbricam-se nessa questão, naturalmente, outras indagações afins, quer sejam: como é que a lógica passa do nível elementar para o nível superior? Como se dá o processo de elaboração das idéias? Como a elaboração do conhecimento influencia a adaptação à realidade? Etc.

Procurando soluções para esse problema central, Piaget sustenta que a gênese do conhecimento está no próprio sujeito, ou seja, o pensamento lógico não é inato ou tampouco externo ao organismo mas é fundamentalmente construído na interação homem-objeto. Quer dizer, o desenvolvimento da filogenia humana se dá através de um mecanismo auto-regulatório que tem como base um 'kit' de condições biológicas (inatas portanto), que é ativado pela ação e interação do organismo  com o meio ambiente - físico e social (Rappaport, op.cit.). Id est, tanto a experiência sensorial quanto o raciocínio são fundantes do processo de constituição da inteligência, ou do pensamento lógico do homem.

Está implícito nessa ótica de Piaget  que o homem é possuidor de uma estrutura biológica que o possibilita desenvolver o mental, no entanto,  esse fato per se não assegura o desencadeamento de fatores que propiciarão o seu desenvolvimento, haja vista que este só acontecerá a partir da interação do sujeito com o objeto a conhecer. Por sua vez, a relação com o objeto, embora essencial, da mesma forma também não é uma condição suficiente ao desenvolvimento cognitivo humano, uma vez que para tanto é preciso, ainda, o exercício do raciocínio. Por assim dizer, a elaboração do pensamento lógico demanda um processo interno de reflexão. Tais aspectos deixam à mostra que, ao tentar descrever a origem da constituição do pensamento lógico, Piaget focaliza o processo interno dessa construção.

Simplificando ao máximo, o desenvolvimento humano, no modelo piagetiano, é explicado segundo o pressuposto de que existe uma conjuntura de relações interdependentes entre o sujeito conhecedor e o objeto a conhecer. Esses fatores que são complementares envolvem mecanismos bastante complexos e intrincados que englobam o entrelaçamento de fatores que são complementares, tais como: o processo de maturação do organismo, a experiência com objetos, a vivência social e, sobretudo, a equilibração do organismo ao meio.

O conceito de equilibração torna-se especialmente marcante na teoria de Piaget pois ele representa o fundamento que explica todo o processo do desenvolvimento humano. Trata-se de um fenômeno que tem, em sua essência, um caráter universal, já que é de igual ocorrência para todos os indivíduos da espécie humana mas que pode sofrer variações em função de conteúdos culturais do meio em que o indivíduo está inserido. Nessa linha de raciocínio, o trabalho de Piaget leva em conta a atuação de  2 elementos básicos ao desenvolvimento humano: os fatores invariantes e os fatores variantes.

(a) Os fatores invariantes:  Piaget postula que, ao nascer, o indivíduo recebe como herança uma série de estruturas biológicas - sensoriais e neurológicas - que permanecem constantes ao longo da sua vida. São essas estruturas biológicas que irão predispor o surgimento de certas estruturas mentais. Em vista disso, na linha piagetiana, considera-se que o indivíduo carrega consigo duas marcas inatas que são a tendência natural à organização e à adaptação, significando entender, portanto, que, em última instância,  o 'motor' do comportamento do homem é inerente ao ser.

(b) Os fatores variantes: são representados pelo conceito de esquema que constitui a unidade básica de pensamento e ação estrutural do modelo piagetiano, sendo um elemento que se tranforma no processo de interação com o meio, visando à adaptação do indivíduo ao real que o circunda. Com isso, a teoria psicogenética deixa à mostra que a inteligência não é herdada, mas sim que ela é construída no processo interativo entre o homem e o meio ambiente (físico e social) em que ele estiver inserido.

Em síntese, pode-se dizer que, para Piaget, o equilíbrio é o norte que o organismo almeja mas que paradoxalmente nunca alcança (La Taille, op.cit.), haja vista que no processo de interação podem ocorrer desajustes do meio ambiente que rompem com o estado de equilíbrio do organismo, eliciando esforços para que a adaptação se restabeleça. Essa busca do organismo por novas formas de adaptação envolvem dois mecanismos que apesar de distintos são indissociáveis e que se complementam: a assimilação e a acomodação.

(a) A assimilação consiste na tentativa do indivíduo em solucionar uma determinada situação a partir da estrutura cognitiva que ele possui naquele momento específico da sua existência. Representa um processo contínuo na medida em que o indivíduo está em constante atividade de interpretação da realidade que o rodeia e, consequentemente, tendo que se adaptar a ela. Como o processo de assimilação representa sempre uma tentativa de integração de aspectos experienciais aos esquemas previamente estruturados, ao entrar em contato com o objeto do conhecimento o indivíduo busca retirar dele as informações que lhe interessam deixando outras que não lhe são tão importantes (La Taille, vídeo), visando sempre a restabelecer a equilibração do organismo.

(b) A acomodação, por sua vez,  consiste na capacidade de modificação da estrutura mental antiga para dar conta de dominar um novo objeto do conhecimento. Quer dizer, a acomodação representa "o momento da ação do objeto sobre o sujeito" (Freitas, op.cit.:65) emergindo, portanto, como o elemento complementar das interações sujeito-objeto.  Em síntese, toda experiência é assimilada a uma estrutura de idéias já existentes (esquemas) podendo provocar uma transformação nesses esquemas, ou seja, gerando um processo de acomodação. Como observa Rappaport (1981:56),

os processos de assimilação e acomodação são complementares e acham-se presentes durante toda a vida do indivíduo e permitem um estado de adaptação intelectual (...) É muito difícil, se não impossível, imaginar uma situação em que possa ocorrer assimilação sem acomodação, pois dificilmente um objeto é igual a outro já conhecido, ou uma situação é exatamente igual a outra.



Vê-se nessa idéia de "equilibração" de Piaget a marca da sua formação como Biólogo que o levou a traçar um paralelo entre a evolução biológica da espécie e as construções cognitivas. Tal processo pode ser representado pelo seguinte quadro:

Dessa perspectiva, o processo de equilibração pode ser definido como um mecanismo de organização de estruturas cognitivas em um sistema coerente que visa a levar o indivíduo a construção de uma forma de adaptação à realidade. Haja vista que o "objeto nunca se deixa compreender totalmente" (La Taille, op.cit.), o conceito de equilibração sugere algo móvel e dinâmico, na medida em que a constituição do conhecimento coloca o indivíduo frente a conflitos cognitivos constantes que movimentam o organismo no sentido de resolvê-los. Em última instância, a concepção do desenvolvimento humano, na linha piagetiana, deixa ver que é no contato com o mundo que a matéria bruta do conhecimento é 'arrecadada', pois que é no processo de construções sucessivas resultantes da relação sujeito-objeto que o indivíduo vai formar o pensamento lógico.

É bom considerar, ainda, que, na medida em que toda experiência leva em graus diferentes a um processo de assimilação e acomodação, trata-se de entender que o mundo das idéias, da cognição, é um mundo inferencial. Para avançar no desenvolvimento é preciso que o ambiente promova condições para transformações cognitivas, id est,  é necessário que se estabeleça um conflito cognitivo que demande um esforço do indivíduo para superá-lo a fim de que o equilíbrio do organismo seja restabelecido, e assim sucessivamente.

 No entanto, esse processo de transformação vai depender sempre de como o indivíduo vai elaborar e assimilar as suas interações com o meio, isso porque a visada conquista da equilibração do organismo reflete as elaborações possibilitadas pelos níveis de desenvolvimento cognitivo que o organismo detém nos diversos estágios da sua vida. A esse respeito, para Piaget, os modos de relacionamento com a realidade são divididos em 4 períodos, como destacaremos na próxima seção deste trabalho.

3) OS ESTÁGIOS DO DESENVOLVIMENTO HUMANO

Piaget considera 4 períodos no processo evolutivo da espécie humana que são caracterizados "por aquilo que o indivíduo consegue fazer melhor" no decorrer das diversas faixas etárias ao longo do seu processo de desenvolvimento (Furtado, op.cit.). São eles:

1º período: Sensório-motor (0 a 2 anos)
2º período: Pré-operatório (2 a 7 anos)
3º período: Operações concretas (7 a 11 ou 12 anos)
4º período: Operações formais (11 ou 12 anos em diante)

Cada uma dessas fases é caracterizada por formas diferentes de organização mental que possibilitam as diferentes maneiras do indivíduo relacionar-se com a realidade que o rodeia (Coll e Gillièron, 1987). De uma forma geral, todos os indivíduos vivenciam essas 4 fases na mesma seqüência, porém o início e o término de cada uma delas pode sofrer variações em função das características da estrutura biológica de cada indivíduo e da riqueza (ou não) dos estímulos proporcionados pelo meio ambiente em que ele estiver inserido. Por isso mesmo é que "a divisão nessas faixas etárias é uma referência, e não uma norma rígida", conforme lembra Furtado (op.cit.). Abordaremos, a seguir, sem entrar em uma descrição detalhada, as principais características de cada um desses períodos.

(a) Período Sensório-motor (0 a 2 anos): segundo La Taille (2003), Piaget usa a expressão "a passagem do caos ao cosmo" para traduzir o que o estudo sobre a construção do real descreve e explica. De acordo com a tese piagetiana, "a criança nasce em um universo para ela caótico, habitado por objetos evanescentes (que desapareceriam uma vez fora do campo da percepção), com tempo e espaço subjetivamente sentidos, e causalidade reduzida ao poder das ações, em uma forma de onipotência" (id ibid). No recém nascido, portanto, as funções mentais limitam-se ao exercício dos aparelhos reflexos inatos. Assim sendo, o universo que circunda a criança é conquistado mediante a percepção e os movimentos (como a sucção, o movimento dos olhos, por exemplo).

Progressivamente, a criança vai aperfeiçoando tais movimentos reflexos e adquirindo habilidades e chega ao final do período sensório-motor já se concebendo dentro de um cosmo "com objetos, tempo, espaço, causalidade objetivados e solidários, entre os quais situa a si mesma como um objeto específico, agente e paciente dos eventos que nele ocorrem" (id ibid).

(b) Período pré-operatório (2 a 7 anos): para Piaget, o que marca a passagem do período sensório-motor para o pré-operatório é o aparecimento da função simbólica ou semiótica, ou seja, é a emergência da linguagem. Nessa concepção, a inteligência é anterior à emergência da linguagem e por isso mesmo "não se pode atribuir à linguagem a origem da lógica, que constitui o núcleo do pensamento racional" (Coll e Gillièron, op.cit.). Na linha piagetiana, desse modo, a linguagem é considerada como uma condição necessária mas não suficiente ao desenvolvimento, pois existe um trabalho de reorganização da ação cognitiva que não é dado pela linguagem, conforme alerta La Taille (1992). Em uma palavra, isso implica entender que o desenvolvimento da linguagem depende do desenvolvimento da inteligência.

Todavia, conforme demonstram as pesquisas psicogenéticas (La Taille, op.cit.; Furtado, op.cit., etc.), a emergência da linguagem acarreta modificações importantes em aspectos cognitivos, afetivos e sociais da criança, uma vez que ela possibilita as interações  interindividuais e  fornece, principalmente, a capacidade de trabalhar com representações para atribuir significados à realidade. Tanto é assim, que a aceleração do alcance do pensamento neste estágio do desenvolvimento, é atribuída, em grande parte, às possibilidades de contatos interindividuais fornecidos pela linguagem.

Contudo, embora o alcance do pensamento apresente transformações importantes, ele  caracteriza-se, ainda, pelo egocentrismo, uma vez que a criança não concebe uma realidade da qual não faça parte, devido à ausência de esquemas conceituais e da lógica. Para citar um exemplo pessoal relacionado à questão, lembro-me muito bem que me chamava à atenção o fato de, nessa faixa etária, o meu filho dizer coisas do tipo "o meu carro do meu pai", sugerindo, portanto, o egocentrismo característico desta fase do desenvolvimento. Assim, neste estágio, embora a criança apresente a capacidade de atuar de forma lógica e coerente (em função da aquisição de esquemas sensoriais-motores na fase anterior) ela apresentará, paradoxalmente, um entendimento da realidade desequilibrado (em função da ausência de esquemas conceituais), conforme salienta Rappaport (op.cit.).

(c) Período das operações concretas (7 a 11, 12 anos): neste período o egocentrismo intelectual e social (incapacidade de se colocar no ponto de vista de outros) que caracteriza a fase anterior dá lugar à emergência da capacidade da criança de estabelecer relações e coordenar pontos de vista diferentes  (próprios e de outrem ) e de integrá-los de modo lógico e coerente (Rappaport, op.cit.). Um outro aspecto importante neste estágio refere-se ao aparecimento da capacidade da criança de interiorizar as ações, ou seja, ela começa a realizar operações mentalmente e não mais apenas através de ações físicas típicas da inteligência sensório-motor (se lhe perguntarem, por exemplo, qual é a vareta maior, entre várias, ela será capaz de responder acertadamente comparando-as mediante a ação mental, ou seja, sem precisar medi-las usando a ação física).

Contudo, embora a criança consiga raciocinar de forma coerente, tanto os esquemas conceituais como as ações executadas mentalmente se referem, nesta fase, a objetos ou situações passíveis de serem manipuladas ou imaginadas de forma concreta. Além disso, conforme pontua La Taille (1992:17) se no período pré-operatório a criança ainda não havia adquirido a capacidade de reversibilidade, i.e., "a capacidade de pensar simultaneamente o estado inicial e o estado final de alguma transformação efetuada sobre os objetos (por exemplo, a ausência de conservação da quantidade quando se transvaza o conteúdo de um copo A para outro B, de diâmetro menor)", tal reversibilidade será construída ao longo dos estágios operatório concreto e formal.

(d) Período das operações formais (12 anos em diante): nesta fase a criança, ampliando as capacidades conquistadas na fase anterior, já consegue raciocinar sobre hipóteses na medida em que ela é capaz de formar esquemas conceituais abstratos e através deles executar operações mentais dentro de princípios da lógica formal. Com isso, conforme aponta Rappaport (op.cit.:74) a criança adquire "capacidade de criticar os sistemas sociais e propor novos códigos de conduta: discute valores morais de seus pais e contrói os seus próprios (adquirindo, portanto, autonomia)".

De acordo com a tese piagetiana, ao atingir esta fase, o indivíduo adquire a sua forma final de equilíbrio, ou seja, ele consegue alcançar o padrão intelectual que persistirá durante a idade adulta. Isso não quer dizer que ocorra uma estagnação das funções cognitivas, a partir do ápice adquirido na adolescência, como enfatiza Rappaport (op.cit.:63), "esta será a forma predominante de raciocínio utilizada pelo adulto. Seu desenvolvimento posterior consistirá numa ampliação de conhecimentos tanto em extensão como em profundidade, mas não na aquisição de novos modos de funcionamento mental".

Cabe-nos problematizar as considerações anteriores de Rappaport, a partir da seguinte reflexão: resultados de pesquisas* têm indicado que adultos "pouco-letrados/escolarizados" apresentam modo de funcionamento cognitivo "balizado pelas informações provenientes de dados perceptuais, do contexto concreto e da experiência pessoal" (Oliveira, 2001a:148). De acordo com os pressupostos da teoria de Piaget, tais adultos estariam, portanto, no estágio operatório-concreto, ou seja, não teriam alcançado, ainda, o estágio final do desenvolvimento que caracteriza o funcionamento do adulto (lógico-formal). Como é que tais adultos (operatório-concreto) poderiam, ainda, adquirir condições de ampliar e aprofundar conhecimentos (lógico-formal) se não lhes é reservada, de acordo com a respectiva teoria, a capacidade de desenvolver "novos modos de funcionamento mental"? - aliás, de acordo com a teoria, não dependeria do desenvolvimento da estrutura cognitiva a capacidade de desenvolver o pensamento descontextualizado?

Bem, retomando a nossa discussão, vale ressaltar, ainda, que, para Piaget, existe um desenvolvimento da moral que ocorre por etapas, de acordo com os estágios do desenvolvimento humano. Para Piaget (1977 apud La Taille 1992:21), "toda moral consiste num sistema de regras e a essência de toda moralidade deve ser procurada no respeito que o indivíduo adquire por estas regras". Isso porque Piaget entende que nos jogos coletivos as relações interindividuais são regidas por normas que, apesar de herdadas culturalmente, podem ser modificadas consensualmente entre os jogadores, sendo que o dever de 'respeitá-las' implica a moral por envolver questões de justiça e honestidade.

Assim sendo, Piaget argumenta que o desenvolvimento da moral abrange 3 fases: (a) anomia (crianças até 5 anos), em que a moral não se coloca, ou seja, as regras são seguidas, porém o indivíduo ainda não está mobilizado pelas relações bem x mal e sim pelo sentido de hábito, de dever; (b) heteronomia (crianças até 9, 10 anos de idade), em que a moral é = a autoridade, ou seja, as regras não correpondem a um acordo mútuo firmado entre os jogadores, mas sim como algo imposto pela tradição e, portanto, imutável; (c) autonomia, corresponde ao último estágio do desenvolvimento da moral, em que há a legitimação das regras e a criança pensa a moral pela reciprocidade, quer seja o respeito a regras é entendido como decorrente de acordos mútuos entre os jogadores, sendo que cada um deles consegue conceber a si próprio como possível 'legislador' em regime de cooperação entre todos os membros do grupo.

Para Piaget, a própria moral pressupõe inteligência, haja vista que as relações entre moral x inteligência têm a mesma lógica atribuída às relações inteligência x linguagem. Quer dizer, a inteligência é uma condição necessária, porém não suficiente ao desenvolvimento da moral. Nesse sentido, a moralidade implica pensar o racional, em 3 dimensões: a) regras: que são formulações verbais concretas, explícitas (como os 10 Mandamentos, por exemplo); b) princípios: que representam o espírito das regras (amai-vos uns aos outros, por exemplo); c) valores: que dão respostas aos deveres e aos sentidos da vida, permitindo entender de onde são derivados os princípios das regras a serem seguidas.

Assim sendo, as relações interindividuais que são regidas por regras envolvem, por sua vez, relações de coação - que corresponde à noção de dever;  e de cooperação - que pressupõe a noção de articulação de operações de dois ou mais sujeitos, envolvendo não apenas a noção de 'dever' mas a de 'querer' fazer. Vemos, portanto, que uma das peculiaridades do modelo piagetiano consiste em que o papel das relações interindividuais no processo evolutivo do homem é focalizado sob a  perspectiva da ética (La Taille, 1992). Isso implica entender que "o desenvolvimento cognitivo é condição necessária ao pleno exercício da cooperação, mas não condição suficiente, pois uma postura ética deverá completar o quadro" (idem p. 21).

4) AS CONSEQÜÊNCIAS DO MODELO PIAGETIANO PARA A AÇÃO PEDAGÓGICA

Como já foi mencionado na apresentação deste trabalho, a teoria psicogenética de Piaget não tinha como objetivo principal propor uma teoria de aprendizagem. A esse respeito, Coll (1992:172) faz a seguinte observação: "ao que se sabe, ele [Piaget] nunca participou diretamente nem coordenou uma pesquisa com objetivos pedagógicos". Não obstante esse fato, de forma contraditória aos interesses previstos, portanto, o modelo piagetiano, curiosamente, veio a se tornar uma das mais importantes diretrizes no campo da aprendizagem escolar, por exemplo, nos USA,  na Europa e no Brasil, inclusive.

De acordo com Coll (op.cit.) as tentativas de aplicação da teoria genética no campo da aprendizagem são numerosas e variadas, no entanto os resultados práticos obtidos com tais aplicações não podem ser considerados tão frutíferos. Uma das razões da difícil penetração da teoria genética no âmbito da escola deve-se, principalmente, segundo o autor, "ao difícil entendimento do seu conteúdo conceitual como pelos método de análise formalizante que utiliza e pelo estilo às vezes 'hermético' que caracteriza as publicações de Piaget" (idem p. 174). Coll (op.cit.) ressalta, também, que a aplicação educacional da teoria genética tem como fatores complicadores, entre outros: a) as dificuldades de ordem técnica, metodológicas e teóricas no uso de provas operatórias como instrumento de diagnóstico psicopedagógico, exigindo um alto grau de especialização e de prudência profissional, a fim de se evitar os riscos de sérios erros;  b) a predominância no "como" ensinar coloca o objetivo do "o quê" ensinar em segundo plano,  contrapondo-se, dessa forma, ao caráter fundamental de transmissão do saber acumulado culturalmente que é uma função da instituição escolar, por ser esta de caráter preeminentemente político-metodológico e não técnico como tradicionalmente se procurou incutir nas idéias da sociedade; c) a parte social da escola fica prejudicada uma vez que o raciocínio por trás da argumentação de que a criança vai atingir o estágio operatório secundariza a noção do desenvolvimento do pensamento crítico; d) a idéia básica do construtivismo postulando que a atividade de organização e planificação da aquisição de conhecimentos estão à cargo do aluno acaba por não dar conta de explicar o caráter da intervenção por parte do professor; e) a idéia de que o indivíduo apropria os conteúdos  em conformidade com o desenvolvimento das suas estruturas cognitivas estabelece o desafio da descoberta do "grau ótimo de desequilíbrio", ou seja, o objeto a conhecer  não deve estar nem além nem aquém da capacidade do aprendiz conhecedor.

Por outro lado, como contribuições contundentes da teoria psicogenética podem ser citados, por exemplo: a) a possibilidade de estabelecer objetivos educacionais uma vez que a teoria fornece parâmetros importantes sobre o 'processo de pensamento da criança' relacionados aos estádios do desenvolvimento; b) em oposição às visões de teorias behavioristas que consideravam o erro como interferências negativas no processo de aprendizagem, dentro da concepção cognitivista da teoria psicogenética, os erros passam a ser entendidos como estratégias usadas pelo aluno na sua tentativa de aprendizagem de novos conhecimentos (PCN, 1998); c) uma outra contribuição importante do enfoque psicogenético foi lançar luz à questão dos diferentes estilos individuais de aprendizagem; (PCN, 1998); entre outros.

Em resumo, conforme aponta Coll (1992), as relações entre teoria psicogenética x educação, apesar dos complicadores decorrentes da "dicotomia entre os aspectos estruturais e os aspectos funcionais da explicação genética" (idem, p. 192) e da tendência dos projetos privilegiarem, em grande parte, um reducionismo psicologizante em detrimento ao social  (aliás, motivo de caloroso debate entre acadêmicos*), pode-se considerar que a teoria psicogenética trouxe contribuições importantes ao campo da aprendizagem escolar.

5) CONSIDERAÇÕES FINAIS

A referência deste nosso estudo foi a teoria de Piaget cujas proposições nucleares dão conta de que a compreensão do desenvolvimento humano equivale à compreensão de como se dá o processo de constituição do pensamento lógico-formal, matemático. Tal processo, que é explicado segundo o pressuposto de que existe uma conjuntura de relações interdependentes entre o sujeito conhecedor e o objeto a conhecer, envolve mecanismos complexos e intrincados que englobam aspectos que se entrelaçam e se complementam, tais como: o processo de maturação do organismo, a experiência com objetos, a vivência social e, sobretudo, a equilibração do organismo ao meio.

Em face às discussões apresentadas no decorrer do trabalho, cremos ser lícito concluir que as idéias de Piaget representam um salto qualitativo na compreensão do desenvolvimento humano, na medida em que é evidenciada uma tentativa de integração  entre o sujeito e o mundo que o circunda. Paradoxalmente, contudo - no que pese a rejeição de Piaget pelo antagonismo das tendências objetivista e subjetivista -  o papel do meio no funcionamento do indivíduo é relegado a um plano secundário, uma vez que permanece, ainda, a predominância do indivíduo em detrimento das influências que o meio exerce na construção do seu conhecimento.

 6) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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* Doutoranda em Lingüística Aplicada/IEL
* Ribeiro (2001, 2002);  Oliveira ( 2001B); Luria (2001)
* Ver Becker (1994) e Silva (1993,)
Fonte: http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/d00005.htm

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

FUNDAMENTOS PSICOLÓGICOS DA EDUCAÇÃO

Teoria de Aprendizagem de Skinner

Por André Luis Silva da Silva 

Nas graduações e pós-graduações de Educação, são comuns a existência de disciplinas que abordam as Teorias de Aprendizagem. Dessa forma, esse texto visa argumentar sobre alguns pontos importantes da Teoria de Aprendizagem segundo Skinner. “Burrhus Frederic Skinner nasceu em 1904 na cidade de Susquehanna, no Estado da Pennsylvania, Estados Unidos. Concluiu o segundo grau em 1922, no mesmo ano entrou na universidade Hamilton College. Graduou-se em literatura inglesa e línguas românicas, em 1926, e, com essa formação, Skinner decidiu ser escritor. Essa idéia foi abandonada em 1928 quando resolveu fazer o curso de pós-graduação em Psicologia, se inscrevendo no programa de Psicologia Experimental, em Harvard University. Obteve os títulos de Mestrado e Doutorado, em 1930 e 1931, respectivamente. Após o doutoramento, permaneceu em Harvard, até 1936, com um apoio financeiro para fazer pesquisas”.

A palavra chave da teoria de Skinner é comportamento. Para ele, a aprendizagem concentra-se na capacidade de estimular ou reprimir comportamentos, desejáveis ou indesejáveis. Na sala de aula, a repetição mecânica deve ser incentivada, pois esta leva à memorização e assim ao aprendizado. O ensino é obtido quando o que precisa ser ensinado pode ser colocado sob condições de controle e sob comportamentos observáveis. Os comportamentos são obtidos punindo o comportamento não desejado e reforçado ou incentivado o comportamento desejado com um estímulo, repetido até que ele se torne automático. Dessa forma, segundo Skinner, a aprendizagem concentra-se na aquisição de novos comportamentos.

A aprendizagem ocorre através de estímulos e reforços, de modo que se torna mecanizada. De acordo com a teoria de Skinner, os alunos recebem passivamente o conhecimento do professor. Em sua visão, conhecida como Behaviorismo, os comportamentos são obtidos pelo reforço - estímulo do comportamento desejado. O papel do professor é criar ou modificar comportamentos para que o aluno faça aquilo que o professor deseja. É Adequada para cursos técnicos, especialistas e treinamentos ou em atividades que visam ensinar conteúdo e tarefas que se apoiam na memorização e fixação dos conhecimentos, ainda hoje muito frequentes na educação. A compreensão do comportamento humano apoia-se em seu comportamento operante. De acordo com Skinner, o seu interesse está em compreender o comportamento humano, não e manipulá-lo.

Em seus últimos anos, Skinner atacou a psicologia cognitivista, afirmando que a educação é um modelo que se dá do meio para o indivíduo, e não o contrário. O modelo Behaviorista de Skinner, em sua unidade conhecida como Behaviorismo Radical, é ainda muito popular, crescendo anualmente em relação ao número de estudiosos. Segundo ela, os fenômenos mentais devem ser discutidos como padrões de comportamento. Todo comportamento é fruto de um condicionamento, e assim não existem habilidades inatas nos organismos.



MOREIRA, Marco Antônio; Teorias de Aprendizagens, EPU, São Paulo, 1995

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A FILOSOFIA DE ROUSSEAU

Por: Ana Lucia Santana

A filosofia de Jean-Jacques Rousseau tem como essência a crença de que o Homem é bom naturalmente, embora esteja sempre sob o jugo da vida em sociedade, a qual o predispõe à depravação. Para ele o homem e o cidadão são condições paradoxais na natureza humana, pois é o reflexo das incoerências que se instauram na relação do ser humano com o grupo social, que inevitavelmente o corrompe.

É assim que o Homem, para Rousseau, se transforma em uma criatura má, a qual só pensa em prejudicar as outras pessoas. Por esta razão o filósofo idealiza o homem em estado selvagem, pois primitivamente ele é generoso. Um dos equívocos cometidos pela sociedade é a prática da desigualdade, seja a individual, seja a provocada pelo próprio contexto social.  Nesta categoria ele engloba desde a presença negativa dos ciúmes no relacionamento afetivo, até a instauração da propriedade privada como base da vida econômica.

Mas Rousseau acredita que há um caminho que pode reconduzir o indivíduo a sua antiga bondade, o qual é teorizado politicamente em sua obra Contrato Social, e pedagogicamente em Emílio, outra publicação essencial deste filósofo. Ele crê que a carência de igualdade na personalidade humana é algo que integra sua natureza; já a desigualdade social deve ser eliminada, pois priva o Homem do exercício da liberdade, substituindo esta prática pela devoção aos aspectos exteriores e às normas de etiqueta.

Em sua obra Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, Rousseau discorre sobre a questão da maldade humana. Para melhor analisar esta característica, ele estabelece três etapas evolutivas na jornada do Homem. O primeiro estágio refere-se ao homem natural, subjugado pelos instintos e pelas sensações, sujeito ao domínio da Natureza; o segundo diz respeito ao homem selvagem, já impregnado por confrontos morais e imperfeições; segue-se, então, a condição do homem civilizado, marcada por intensos interesses privados, que sufocam sua moralidade.

É neste processo que o indivíduo se converte em um ser egoísta e individualista, convertendo sua bondade natural, gradualmente, em maldade. O Homem abre mão de sua liberdade e assim se desqualifica enquanto ser humano, pois se vê despojado do principal veículo para a realização espiritual. A solução apontada por Rousseau para esta situação é enveredar pelos caminhos do autoconhecimento, através do campo emotivo da Humanidade.

Na esfera da educação, exposta no Emílio, ele teoriza filosoficamente sobre o Homem. Sua principal inquietação, neste ponto, é saber se educa o indivíduo ou o cidadão, já que, para ele, estas duas facetas não podem conviver no mesmo ser, por serem completamente opostas.

Rousseau defende a formação do homem natural no seu lar, junto aos familiares, por constituir um ser integral voltado para si mesmo, que vive de forma absoluta. Já o cidadão deve ser educado no circuito público proporcionado pelo Estado, pois é tão somente uma parte do todo, e por esta razão engendra uma vida relativa. O aprendizado social, segundo o filósofo, não produz nem o homem, nem o cidadão, mas sim um híbrido de ambos. Aliar os dois implica investir no saber do ser humano em seu estágio natural – por exemplo, a criança –, e o cidadão só terá existência a partir desta condição, a qual tem como fonte a Natureza e como fio condutor a trajetória individual.

Fontes: http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/filosofo-liberdade-como-valor-supremo-423134.shtml / http://www.unicamp.br/~jmarques/cursos/rousseau2001/acs.htm

terça-feira, 21 de outubro de 2014

JUVENTUDE, TRABALHO E DIGNIDADE

A cada ano, cerca de um milhão de jovens atinge a idade de 16 anos, abrindo perspectivas para entrar formalmente no universo do trabalho. Se considerarmos que mais de 85% da população brasileira é trabalhadora, teremos então um elevado número de jovens que anualmente procuram trabalho. Os dados oficiais, porém, não são animadores porque, segundo o IBGE, ao menos 40% desses jovens não encontram trabalho. E para os que encontram “um lugar ao sol”, os salários são irrisórios, variando entre meio e dois salários mínimos, sendo que a média gira em torno do mínimo nacional.

O quadro se agrava quando olhamos o resultado do modelo de educação em que a maioria dos jovens que findam o Ensino Médio não alcança a média aceitável do aprendizado: “Quase metade dos 2,6 milhões de alunos que prestaram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2009 teve notas inferiores a 500 pontos estabelecidos como média pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pela prova, em todas as quatro áreas avaliadas” (Estado de São Paulo de 29 de janeiro de 2010). Com isto não conseguem ter o discernimento necessário a um bom desempenho no contexto de sua vida pessoal, familiar, de trabalho e política. Perguntamos: O que fazem, em geral, os jovens que buscam trabalho e não encontram? O que o mundo capitalista lhes oferece? Que perspectiva de vida feliz terão?

A exploração do trabalho

Outro fator a ser considerado é que os trabalhadores produzem a riqueza do país, porém, esses que produzem ficam com parte insignificante da distribuição da renda gerada, insuficiente para manter sua vida e a vida de sua família com um mínimo de dignidade. A economia que vigora no mundo capitalista é concentradora de riquezas nas mãos de uns poucos e multiplicadora de miséria para a imensa maioria. Com a chegada do neoliberalismo, essa concentração se intensificou. Tal fator se agrava quando entendemos que os estados estão organizados em função do capital e não do bem-estar do povo. Assim, todo planejamento nacional se faz em torno dos interesses das grandes empresas, em detrimento da qualidade da vida do povo. Nesta fase do neoliberalismo, a fome já atinge dois terços da humanidade - mais de quatro bilhões de pessoas -, segundo a ONU.

Ainda que em alguns países, por questões históricas, o padrão de vida esteja acima da maioria das nações, ali também prevalece a precária distribuição da renda, com miseráveis se amontoando pelas ruas. Nesse contexto, considerando ainda que os países imperialistas (EUA e países da União Europeia) procuram dominar nações menos poderosas, para delas extrair riquezas, as guerras se multiplicam dizimando gerações de adultos, de jovens e de crianças. Enquanto que, internamente, com o campo aberto ao tráfico de drogas, verdadeiras guerras civis são travadas. E a juventude é a mais atingida, principalmente os pobres e negros.

Ser humano, a prioridade

Sem trabalho ou com sua supererxploração, o que o mundo capitalista deixa para a imensa maioria da juventude é uma vida com menos perspectivas, embora continue a lhes oferecer um paraíso aqui na terra, se consumirem seus produtos, enquanto nega-lhes os meios para adquiri-los. Não é por menos que presenciamos jovens alienados, desesperados, sem sequer compreender o que se passa e quais as causas da sua marginalização e miséria.

O desafio que se coloca é como desenvolver um amplo trabalho de conscientização e de organização da juventude, visando a prepará-la para exigir profundas mudanças estruturais, como no caso do Brasil. O presente e o futuro estão nas mãos da juventude e está precisa se capacitar para exercer seu protagonismo no mundo da cultura, do trabalho, da economia e da política (no seu amplo sentido, não unicamente partidário). É preciso repensar a organização e a função do trabalho, colocando o ser humano como o destinatário de toda a produção e não o ser humano a serviço da produção. Repensar a organização da nação, tendo seus poderes sob controle popular e voltado, em primeiro lugar, para o bem comum.

Palavras-chave: Selecione Juventude, trabalho e dignidade Artigo sobre juventude e trabalho.


Waldemar Rossi - metalúrgico aposentado e membro da Pastoral Operária da arquidiocese de São Paulo. walderossi@ig.com.br. Jornal Mundo Jovem.

Fonte: http://www.mundojovem.com.br/artigos/juventude-trabalho-e-dignidade

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

DIVERSIDADE ETNICO-CULTURAL

TEORIAS ANTROPOLÓGICAS

Josuel de Souza Ferreira[1]        




           Bem, as Teorias Antropológicas clássicas e contemporânea que constrói sua história a partir da segunda metade do século XIX. Como sabemos, a Antropologia é a ciência que estuda o homem, e sua cultura e suas relações sociais. Por tanto, se as Teorias convergiam e coincidiam, divergiam e se afastavam em algum ponto, sendo estas teorias desenvolvidas na Inglaterra, França, Estados Unidos e Alemanha, cabe a cada um de nós que estudamos a aprimorar os nossos conhecimentos sobre a antropologia nos seus mais diversos contextos. A antropologia, como ciência da modernidade, coloca seu aparato teórico construído no passado, com possibilidade de, no presente, explicar e compreendermos os movimentos provocados pela globalização: de um lado, os processos homogeneizantes da ordem social mundial e, de outro, contrariando tal tendência, a reivindicação das singularidades, apontando para a constituição da humanidade no contexto social a qual estamos inseridos. Contudo, essa tradição é hoje alvo de controvérsias, na medida em que os fatos decorrentes da intensa transformação da realidade parecem não estar contidos em seus princípios explicativos. Nesse campo de tensão, defende-se que ora a trajetória da antropologia tem sido a de avaliar as diferenças sociais, étnicas e outras com a finalidade de proporcionar alternativas de intervenção sobre a realidade social de modo a não negar as diferenças. Estudar as culturas humanas no tempo e no espaço, temos como exemplo: Etnografia, que é um ramo da ciência da cultura que descreve as sociedades humanas. Na antropologia, predomina-se a teoria do Evolucionismo Social. Sua principal característica é a sistematização do conhecimento das sociedades primitivas. Nascendo aqui o etnocentrismo como características evolucionistas, tendo como metodologia de estudo a etnografia que é o estudo de determinados grupos sociais passando por um julgamento de valor da cultura do outro. Com isso, vemos a importância de estudar e conhecer cada vez mais a Antropologia e essa grande diversidade cultural que temos no Brasil e no mundo.



[1] Graduando do curso de Licenciatura em Filosofia pela Universidade Cidade de São Paulo - UNICID (2014), e possui graduação em Licenciatura em Letras Português/Inglês duração plena pela FTC - Faculdade de Tecnologia e Ciências de Feira de Santana (2011), e Especialização em Administração Escolar, Supervisão e Orientação pela UNIASSELVI - Centro Universitário Leonardo da Vinci (2013), fiz também o curso do Magistério no Colégio Estadual Dom Pedro II - CEDP II. Sou professor de Língua Portuguesa, Inglesa das series do Ensino Fundamental I, II e do Ensino Médio, Redação e de Literatura da Língua Portuguesa. Tenho experiencia em Administração Escolar, Supervisão e Orientação Educacional.


REFERENCIAS

DURHAM, Eunice. Cultura e ideologia. Dados — Revista de Ciências Sociais. Rio de Janeiro,
v. 27, n. 1, p. 71-89, 1984.

FONSECA, Claudia. Educação sem-terra. Um estudo de antropologia aplicada a um projeto de educação popular para um grupo de trabalhadores sem-terra no interior de Minas Gerais. Tese (Doutorado) — Paris V, 1982, UFRGS, 1983.

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar Editores, (1973) 1978.

GUSMÃO, Neusa Maria Mendes de (Org.). Antropologia e Educação: interfaces do ensino e
da pesquisa. Cadernos Cedes, Cedes/Unicamp, n. 43, ano XVIII. p. 8-25, dezembro de l997.
______. Linguagem, cultura e alteridade: imagens do outro. Cadernos de Pesquisa, n.107, p.
46-78, julho de 1999.



domingo, 17 de agosto de 2014

FILOSOFIA NA SALA DE AULA - JOSÉ RENATO SALATIEL

O que e como ensinar?

Um dos maiores dilemas dos jovens da geração internet envolve como conciliar a velocidade do mundo tecnológico e sua atenção fragmentada com o tempo do pensamento reflexivo e analítico. Para esses jovens estudantes, que vivem num mundo mais prático e ágil, é natural a pergunta "Para que serve a filosofia?"

Em Ensinar Filosofia: um livro para professores (Atta Mídia e Educação), os professores Renata Lima Aspis e Sílvio Gallo, da Unicamp, partem da constatação de que a filosofia é a disciplina mais indicada para responder às dificuldades dos jovens de se expressarem com apuro, de forma crítica e independente. Trocando em miúdos, a filosofia na sala de aula é importante para organizar as ideias e desenvolver uma postura mais ativa perante o mundo, fatores essenciais para formar cidadãos ao invés de meros consumidores.

Mas como ensinar filosofia? Esta é uma questão antiga entre acadêmicos, ainda mais para uma disciplina vista (erroneamente) como uma cansativa exposição de ilustres mortos que escreveram textos obscuros e desenvolveram pensamentos muito abstratos, desconexos com a realidade. O mérito dos autores, e do livro em particular, é apostar numa visão mais pragmática sobre o assunto. Para eles, a filosofia não pode se furtar de seu compromisso com a realidade e, como aprendizado, deve procurar estabelecer um diálogo com o cotidiano dos alunos.

Da teoria à prática

De forma clara e didática, os argumentos são ordenados em duas partes: "O que Ensinar?" e "Como Ensinar?". Na primeira parte, os autores apresentam o objetivo de ensinar não uma disciplina, entendida como corpo de saberes constituídos, mas oferecer aos jovens a filosofia como experiência. Para isso, o professor deve ir além da exposição histórica de nomes, correntes e escolas de pensamento, que pouco de proveitoso traz aos alunos. E também não pode se prender à mera discussão de tópicos, à maneira socrática.

O que orienta o conteúdo das aulas é uma perspectiva baseada na filosofia francesa contemporânea, mais especificamente a obra de Gilles Deleuze (1925-1995), que entende a filosofia como atividade de criação (e uso prático) de conceitos. Os alunos devem ser habilitados, portanto, a empregar o pensamento, os conceitos, para analisar e interferir criticamente no mundo.

Mas como fazer isso na prática? Como trazer conceitos abstratos para o dia-a-dia dos estudantes? A segunda parte do livro é dedicada, assim, à discussão de um método de ensino.

A estratégia consiste em problematizar determinados temas escolhidos para trabalhar em sala de aula. Para alunos que nunca tiveram contato com filosofia, textos de autores como Platão, Kant ou Nietzsche podem parecer, à primeira vista, um conjunto de frases sem sentido, como se os filósofos professassem um conhecimento esotérico. Em boa parte das vezes, isso acontece em razão do desconhecimento dos problemas com os quais eles estavam lidando. Os conceitos nada mais são do que ferramentas e soluções criativas para se resolver problemas atemporais, como questões referentes à descoberta da verdade, o comportamento ético ou os gostos estéticos.

Ao se escolher um tema específico, a ética, por exemplo, a proposta é o professor delimitar, junto aos alunos, um problema. "O homem possui livre-arbítrio?", digamos. A questão servirá de porta de entrada aos textos filosóficos e à história da filosofia. A partir da problematização, os alunos iriam investigar como filósofos, antigos ou modernos, trataram da questão.

Uma manobra inteligente para atrair a atenção dos alunos, antes mesmo de fazer o recorte temático, é sensibilizar os jovens, o que pode ser feito por meio de músicas ou filmes (para o problema do livre-arbítrio, por exemplo, filmes como "Minority Report - A Nova Lei" ou "Matrix").

Leituras

O "Como ensinar?", deste modo, tem como primeira etapa a sensibilização, seguida da problematização. O próximo passo, de acordo com os autores, envolve o estudo de textos filosóficos e a produção de ensaios pelos alunos. Mas será que adolescentes do Ensino Médio teriam repertório para enfrentar textos como "Metafísica", de Aristóteles, "Discurso Sobre o Método", de Descartes, ou "Crítica da Razão Pura", de Kant?

Uma coisa é certa: não se aprende filosofia prescindindo do confronto com os textos originais, com as fontes primárias. Pode parecer algo óbvio, mas é comum ver professores, na busca de melhores mediadores em sala de aula, recorrerem a manuais do tipo "O Mundo de Sofia", best-seller de Jostein Gaarder dos anos 1990. E ficarem nisso.

O que Renata Aspis e Sílvio Gallo propõem é que os alunos não somente leiam os textos dos próprios filósofos como também façam isso, inicialmente, sem qualquer aula expositiva ou material de apoio de comentadores. Segundo eles, "O texto assim explorado é mediador da relação professor/aluno, não se servirá ao papel de instrumento de poder. Então, aqui mais uma vez a filosofia é inauguração, é retorno, é atitude de aprendiz que está sempre tendo de recomeçar, para os alunos e para os professores." (p. 95).

Somente após esse primeiro contato terão lugar as aulas expositivas, que contextualizarão as obras dentro da história da filosofia.

A quarta e última etapa do método de ensino consiste na escrita de textos pelos alunos, de modo que empreguem conceitos para trabalhar problemas filosóficos. Leitura e escritas filosóficas, assim, consistem a verdadeira prática de filosofia, muito além do "decoreba" de nomes, conceitos, escolas, e pensamentos que tornam a disciplina algo tão distante para os jovens quanto a Grécia de Platão e Aristóteles, quando, na verdade, estamos mais próximos que imaginamos.

Ensinar Filosofia traz ainda uma discussão indireta e mais ampla sobre o próprio papel da educação nos dias hoje, engessada em modelos burocráticos que cada vez mais distanciam a escola das gerações hipermidiáticas. O livro discute como posicionar a filosofia politicamente em um contexto de dispersão, ausência de valores e de pensamento crítico, e também debate o próprio papel da educação nos dias atuais. O novo "chip" da escola, afinal de contas, pode ser tão velho quanto os pré-socráticos.

 
Ensinar Filosofia: um livro para professores
Renata Lima Aspis e Sílvio Gallo
Atta Mídia e Educação
100 págs.

Fonte: é jornalista e professor universitário.

FILOSOFIA NA SALA DE AULA

Como conhecer as coisas?
        
Vamos refletir sobre como aprendemos o que aprendemos? Estes dias estava em sala de aula, com mais trinta e tantos alunos quando um me perguntou: Como o professor aprendeu tanta coisa? Antes de respondê-lo me ative ao que ele queria saber por ?coisa?. Para esta palavra o aluno disse, tantas informações que o professor guarda, tanto conhecimento sobre tantos assuntos que o professor sabe.

Ai, eu mesmo me perguntei: Como chegamos ao conhecimento das coisas? Como podemos afirmar que conhecemos algo? Não seria estranho afirmar que conheço algo sem conhecê-lo de fato? Para responder a estas perguntas aos alunos daquela turma e a questões que me fiz em companhia deles chamei um mestre para nos orientar a caminhada. Este mestre é Sócrates, filósofo que viveu na Grécia antes do nascimento de Cristo.

Coloquei aos meus alunos da seguinte maneira, vamos ver como esse grande filósofo acreditava que podíamos chegar ao conhecimento das coisas. Pois acredito que a contribuição dele seria muito interessante para entendermos como conhecemos as coisas.

Vamos ver como Sócrates com a Ironia e a Maiêutica acreditava chegar ao conhecimento das coisas. Sócrates foi o filósofo grego acusado de corromper a juventude e ateísmo. Quando esteve em seu julgamento disse que a cidade tinha uma dívida para com ele. Durante seu julgamento o acusador disse que ele era acusado de ateísmo, o que Sócrates perguntou: ?Ateu é aqueles que não acreditam em Deus?? O acusador consentiu que sim, que de fato, um ateu não acreditava em Deus. Sócrates devolve a resposta com outra pergunta: ?Mas também me acusam de inserir novos deuses?? O acusador mais uma vez consente, dizendo que ele estava realmente fazendo isto. Mais uma vez Sócrates devolve: ?Não seria então contraditório acusar um homem que insere novos deuses de ateu, uma vez que ele acredita em algum Deus?? Neste momento seu acusador fica desconcertado e percebe que não tinha conhecimento do que estava falando. Assim era utilizada a ironia, uma ferramenta para conduzir uma pessoa ao entendimento da própria ignorância.

De uma forma similar utilizava a maiêutica, ferramenta através da qual acreditava conduzir os homens ao conhecimento. A partir da célebre frase ?conhece-te a ti mesmo? Sócrates acreditava pela sequência correta de perguntas qualquer um poderia chegar ao conhecimento. Assim comecei perguntando, quando é um, muitos mostraram um objeto. Depois perguntei p que aconteceria se juntássemos mais um objeto ao primeiro. Foram unânimes e dizer que teríamos dois objetos. Vejam, com as perguntas certas levei os alunos ao conhecimento da soma.

Depois de colocar esta posição socrática perguntei a alguns alunos se eles concordam que as verdades veem do intelecto. Alguns concordaram e outros não. Mas não me apeguei ao fato de o filósofo tal disse isto ou aquilo, mas ao fato de que cada um chega ao conhecimento de uma forma. Se eu perguntasse a você, como você chega ao conhecimento das coisas? Melhor do que isso, ela é eficaz?

Depois disto perguntei como eles estudavam, como buscavam chegar ao conhecimento. Alguns disseram que liam repetidamente até não esquecerem, outros disseram que faziam a mesma coisa, mas o resultado ficava aquém do primeiro. Recomendei que tentassem lembrar algo que aprenderam e como aprenderam. Depois vimos que quando sei como chego ao conhecimento não preciso bater cabeça, apenas seguir a minha maneira de aprender.

Alguns conhecem os filmes pelas músicas, assim como há aqueles que conhecem os filmes pelo nome dos atores. Existem ainda aqueles que conhecem os filmes pelos lugares onde foram filmados e assim será para cada um.

Pergunte-se, como é que você chega ao conhecimento e estará abreviando um processo que pode estar engessado pela educação, costume, senso comum, receitas prontas.

Esse é apenas um caminho!


Responsável - Rosemiro A. Sefstrom

Fonte: http://www.filosofia.com.br/vi_sala.php?id=52